sábado, 4 de julho de 2026

Comer barata pode ser uma metáfora para a autofagia como metáfora para o renascer após o autoconhecimento? Uma análise de "A Paixão Segundo GH" de Clarice Lispector, uma obra sobre ser mulher

 "A paixão segundo GH" por Clarice Lispector 


Eu tive de ter esse livro para a escola, então não foi uma escolha muito orgânica de leitura, porém, eu realmente gostei muito do livro e me conectei de uma maneira absurda com a história. Esse é o meu primeiro livro da Clarice Lispector, muita gente me disse que eu começar logo com algo tão confuso e subjetivo quanto esse livro, porém, realmente foi uma experiência e eu amei a escrita de Clarice, para mim, ela deveria ter mais título do que Machado de Assis ( todo o meu ódio a você), porque a Clarice em si sabe escrever muito bem, Pelo modo em que esse livro é escrito, como um grande monólogo psicológico e pessoalmente psicodélico, a minha review vai mesclar a história com meus comentários e interpretações pessoais do decorrer da história.


O livro em si segue uma história muito simples: Temos a nossa protagonista, que se chama por GH que também é a narradora desta história ( em primeira pessoa a história é, por mais de que não goste disso); ela é uma mulher rica e carioca nos meados dos anos 50 ou 60, mora em um bom local no Rio de Janeiro e trabalha como escultora plástica, tendo muito tempo livre e aparentemente uma vida tranquila. 

A narrativa se inicia com ela indo até o quarto de sua antiga empregada, que tinha acabado de despedir, GH soa melancólica e a narrativa deixa a entender que alguma coisa estava ocorrendo antes do início da história, pois o modo com que GH anda por sua casa e se porta de maneira triste e melancólica, como se algo tivesse acabado, como se algo tivesse faltante. Quando GH, que é obcecada com limpeza está andando até o quarto, agora vago, de sua empregada, ela julga que estaria imundo, coisa que, surpreendentemente para ela, não está, por outro lado, o cômodo parece limpo e arrumado como um cômodo de loja; nossa protagonista fica muito surpresa, e começa a andar pelo quarto, pensando como ela irá deixar ele vago para sua próxima empregada, ela menciona como gosta de limpar e como vai pintar as paredes e limpar aquele cômodo com água e sabão. Enquanto ela está andando pelo cômodo, GH encontra um desenho na parede, supostamente feito pela empregada, que retrataria uma mulher, um homem e um cachorro, algo que perturba GH profundamente, uma vez que ela interpreta que a mulher na pintura seria a própria GH, e soava como uma afronta que alguém a desenhasse com um homem. Desconfortos a parte, GH decide que abrirá o pequeno armário do quarto, ao olhar para dentro do móvel ela vê a personagem principal, comparável apenas ao Tifenmesser de "Das Boot", GH dá de cara com uma barata. GH morre de medo, nojo, repulsa e todos os sentimentos ruins, da barata, depois de segundos de tensão, nossa heroína fecha a porta do armário na barata, a matando e a cortando ao meio. Ao ver o corpo bipartido da barata, com suas entranhas vazando na porta do armário, GH entra em uma epifania, um surto, e começa a pensar sobre a sua existência e sobre tudo que havia passado até agora, ela começa a pensar sobre o que é viver, o que é existir, o que ela significa, quem ela é. 

Deste momento para frente na narrativa monológica de GH, entramos em sua psiquê, de forma cada vez mais espiritual e amalgamante, com comparações entre ela mesma e a barata, GH descende a loucura em uma jornada de conhecer a si mesma, dando a nós, leitores, uma imagem inicialmente externa, como a de uma amiga ou de um leitor mesmo, que a cada momento torna-se mais e mais voltada a um alguém, ao longo de sua narrativa, temos uma transição gradual de um grande monólogo de pensamentos a um diálogo, ou carta a alguém. Em seus devaneios de loucura, semelhante àqueles que se tem na calada da noite, em um banho longo, em uma viagem comprida, após uma situação difícil, GH cita algumas vezes, não muitas para ser constante, mas suficiente para formar uma trilha a olhos atentos e críticos, a figura de um "homem amado", ou "amor que eu não sabia", demonstrando que, muito possivelmente havia alguém ali, um homem, que por algum motivo a deixou, um homem que ela parecia amar, que ela parece se arrepender de "perder" ou sentir falta ao longo de seus monólogos; ao juntar estes indícios com a informação de que GH teve um aborto, que a que tudo indica não fora desejado por ela, uma vez que ela lamenta não ter filhos e se culpa por perder, ou "matar" aquele, não deixando claro se ela teve um aborto espontâneo ou se fez um aborto induzido, talvez a pedido deste homem, talvez afim de manter sua face perante a sociedade. GH conta, bem ao começo do livro e bem ao final, enquanto questiona quem é, de diversas formas e visões, que vivia sobre o que os outros achavam que ela era, ainda que a própria não soubesse quem era, quem deveria ser; GH parece presa a uma visão de GH esculpida por ela mesma, moldada aos padrões de suas belíssimas performances, ao longo da história, ela vai se soltando destas amarras, se misturando e se moldando em algo que seria si mesma de verdade.

É verdade, GH realmente come a barata, na realidade, ela está em um estado de transe perigoso e que a aprisiona naquele quarto, sua única forma de sair sendo seus devaneios, ainda que ela é livre a simplesmente sair, toda a transformação de GH, que vai se consumindo, é belíssima e um tanto psicodélica, uma grande mistura dela com aquela barata, o simbolismo do desconforto e de tudo que existiria de mais infeliz em GH, na minha visão, ela ter comido a barata, e cuspido, vomitado, depois e antes, significa que ela consumiu suas partes sombrias e nojentas, as aceitando como parte de si, ainda que as rejeitasse logo após. Em sua trajetória, GH se desmantela até sobrar um fiapo de si e se refaz novamente, questionando a tudo e buscando sua própria visão de ser. A narrativa toda, com suas metáforas, referências, comentários e frases quase sorteadas sem nexo aparente, que soam como "Paprika" (O filme) ou alguma coisa dita por um louco em seus episódios, lembram da loucura própria e o questionar sobre si, representando o cerne da experiência de ser uma mulher. Muitos podem discordar de mim nesta colocação, e provavelmente muitos de vocês vão, porém, para mim, todo esse livro soa muito feminino, é sobre o que é ser e pensar como uma mulher, representando um surto de humanidade que se tem ao viver por muito tempo como um não-humano, não desumano, não-humano, como ela mesma diz; em minha opinião, não há nada que represente melhor essa busca da humanidade em meio a não humanidade do que a busca da identidade e do ser quando se é uma mulher, o neutro da vida, a matéria viva e as milhares de referências a fertilidade e a ovários e a intimidade que este livro traz por meio dos devaneios e monólogo de GH confirmam para mim que este livro é sobre ser mulher e descobrir sua liberdade como uma.

Arrisco eu a dizer que GH só pode conhecer quem ela é, deixando a sua mania de limpeza de lado, uma vez que ela não toma banho o dia todo, após se livrar daquele homem e encontrar aquela barata, que foi seu inferno para chegar ao paraíso, que também é seu inferno, A jornada de Liberdade e entendimento de GH, que não possui um nome definido, uma aparência definida e nem mesmo idade, dando a ela um caráter de imortalidade e transitividade, é uma jornada que se encaixa para todos que leem esse livro, essa história nos convida, como me convidou, a fazer uma jornada por nossas entranhas, puxar tudo pra fora e nos organizar novamente, como se fôssemos argila a ser moldada por nós mesmos, sobre nossos moldes e ideias. 

Não julgo esta como uma leitura difícil, assim como não julgo, por outro lado, esta como uma leitura leve, eu mesma tive de parar inúmeras vezes, por não estar em boas condições mentais para entrar nesta loucura junto a ela, esse livro é como comer polvo, é bizarramente prazeroso, porém estranho e esquisito da primeira vez que se come (eu só realmente gosto de comer polvo). Ter sido esse meu primeiro contato com Clarice me faz absurdamente feliz, eu quero ler mais de suas obras, porém, recomendo uma leitura calma e com pausas, este livro não é pra qualquer um, pois ele é lido com a alma, e não com sua mente, então se não conseguir ler, não é por falta sua, é apenas um limite respeitoso para si mesmo.

A parte dos meus comentários vai ficar faltando de forma separada, porque eles estão na história, não tenho como contar uma história complexa dessas em uma página sem sair do tema, então o melhor a se fazer é ler o livro. Sobre minhas reviews mais bobinhas, elas estão dando espaço para estas sérias porque eu estou lendo muitos livros sérios por diversos motivos, mas juro que tentarei postar mais coisas bobas para equilibrar o clima pesado, e bissemanalmente!! Vou tentar postar uma vez a cada 15 dias, por favor tenham paciência. Mas então é isso, leiam o livro, cuidem da saúde mental de vocês e nos vemos semana-semana que vem!!



























Beijosssss, Dorothea<333


2 comentários:

  1. Adorei a review… Concordo completamente com a ideia da história ser de fato sobre a experiência feminina no mundo que vivemos (mesmo eu não sendo mulher). Ótima escrita rainha dos mares👏👏👏até semana da semana que vem

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Alguém viu minha ideia yay!! Ate semana semana que vem;; obrigado por ler!!

      Excluir

destaque da semana

Comer barata pode ser uma metáfora para a autofagia como metáfora para o renascer após o autoconhecimento? Uma análise de "A Paixão Segundo GH" de Clarice Lispector, uma obra sobre ser mulher

  "A paixão segundo GH" por Clarice Lispector  Eu tive de ter esse livro para a escola, então não foi uma escolha muito orgânica d...

demais