sexta-feira, 26 de junho de 2026

Morreu, morreu agorinha. Uma análise de A Morte de Ivan Illich e sobre mortalidade em geral

 "A Morte de Ivan Illich" por Liev Tolstoi 


A história de como é porque eu li esse livro é bem engraçada. Começa que uma de minhas amigas, que vou chamar de B, pegou esse livro na biblioteca, e outras duas amigas minhas, que vou chamar de MS e MR, vendo que a B estava com o livro, resolveram lê-lo também, pois tinham o livro (inclusive era o mesmo livro na mesma edição) em casa. Eu via as três lendo e fiquei com FOMO (fear of missing out, ou "vi todo mundo fazendo e me senti de fora", para meus leitores que desconhecem o termo), então marchei até o Sebo escutando um bom visual kei e comprei uma edição jurássica e lindíssima do livro por incríveis R$49,90 (ou nada, porque eu tenho vale do Sebo de tanto livro que eu levo pra lá), que vem com essa e outras duas histórias do mesmo autor, as quais eu ainda não li, e provavelmente lerei daqui a uns dois anos.

O livro segue assim:


Acompanhamos Ivan Illich, que já nas primeiras páginas é dado como morto, gerando uma conversa importante entre seus amigos e colegas de trabalho, os quais cobiçam a posição, agora vaga, de Ivan no trabalho, e pensam um pouco sobre a mortalidade, como fazemos todos quando sabemos que alguém próximo morreu. Um destes amigos, Pietr, que conhecia Ivan da faculdade de Direito, vai a casa do morto, em seu velório, aparentemente, ele vai por obrigação social e não por sentir falta do amigo. Ao ver o morto, ele fica assustado, meio sem saber o que fazer, ao falar com a viúva de Ivan, também não sabe o que fazer, logo, Pietr vai embora do velório com um outro conhecido. A partir da partida desse amigo, seguimos para conhecer a vida de Ivan até a sua morte, em TERCEIRA PESSOA. Nós é contado como fora a infância de Ivan, que parecia ter sido bem tranquila e até aristocrática, pois seu pai, Iliya, que era um homem vazio e comum em termos de pessoa, tinha um bom cargo e dinheiro. Ivan era um garoto comum e normal, o filho do meio que, inspirado em seu pai, segue uma carreira juridica, como promotor ou juiz (eu realmente não entendi muito bem o que ele faz, mas leis.); Ivan vai pra faculdade (ou escola técnica) de direito, onde ele conhece Pietr e se tornam amigos, e começa a mapear como vai ser a sua vida dali para frente, que é, comum e tranquila. Ao se formar, o pai lhe arranja um cargo como juiz de algum lugar, que ele vai sem pestanejar e segue sua vidinha de ser tranquilo e aparências boas para a sociedade, ele se muda deste local para um outro local mais afastado, onde encontra quem futuramente seria sua esposa, uma mulher de família rica, com bom dote e uma aparência (social e física) boa chamada Prascóvia; Ivan se casa com ela, não por amor, e sim porque ele sentia que deveria casar (palavras do próprio Ivan) e começa a seguir sua vida, agora casado.

Seu matrimônio é infeliz, Ivan se sente sufocado pela esposa, começando até a ter ódio e ressentimento da mesma, e busca a fuga dela no trabalho, cumprindo com ela, apenas o dever de gerar um filho, ou no caso deles, dois, Lisa e Vladimir, sendo a primeira a mais velha e o segundo o mais novo, que ainda está na escola. Ele nunca demonstra gostar destas crianças ou ter alguém sentimento por elas, na realidade, quase não se sabe o nome dos dois se não no final do livro. Ivan, um dia, acaba infeliz com seu trabalho, pois havia sido rebaixado de cargo, então, ele busca um cargo melhor, e a família se muda para São Petesburgo, pois agora, Ivan é um oficial importante da Corte da Justiça; ele vai antes da família, compra uma casa e manda mobiliar ela inteirinha, não parece fazer com gosto, que não para mostrar seu poder. Enquanto mobília a casa, Ivan acaba caindo e se machuca, mas não dá importância a essa queda e machucado, e apenas leva a família para a casa, esposa e filhos ficam deslumbrados, pois Ivan havia dito que a casa era pior para os dar essa surpresa, e mais uma vez, segue a vida burguesa rica russa comum para a família. O problema se inicia com a queda de Ivan, seu machucado acaba por evoluir e evoluir, até que ele não suporta mais a dor, vai ao médico, nada resolve, a outro médico, nada resolve, e a dor começa a aumentar e aumentar, ele tenta ignorar, tomando os remédios e se afundando no seu porto seguro, o trabalho, porém essa dor, que logo se torna uma doença, começa a consumir Ivan. Logo, Ivan está de cama, cada vez mais incapaz, cada vez mais miserável e melancólico, ao ficar doente, Ivan começa a se ver como um estorvo e perde as esperanças a cada dia que se passa, ficando sempre fraco e com dor; em certo momento, Ivan nota que a morte se aproxima de si, ela o espreita e isso o apavora, então, acompanhamos Ivan em seus pensamentos, desejando viver e se perguntando o por que de desejar isso, até que chega na conclusão de que não tinha porque viver, e que não tinha feito nada em sua vida. A doença só aumenta e aumenta, aparentemente, sua esposa não dá ouvidos ou se importa com o estado de doença do marido, sua filha também não se importa, afinal, ela está sendo prometida a um homem, e deve se preocupar com isso, os únicos que, aparentemente, de importam com a doença de Ivan são seu filho e seu criado, um jovem cheio de vida, Gerassim, a quem Ivan é muito grato. Depois de muita agonia, berros por três dias e absurda melancolia, Ivan finalmente morre, sentindo como se tivesse se libertado da família e libertado a família dele, como um estorvo. E o livro acaba, pois voltamos a situação do começo.



O livro mostra bastante, na minha opinião, o que é morrer, em todos os sentidos, e como algumas pessoas já estão mortas antes de se quer morrerem. O Ivan, ou Vanya, porque eu acompanhei a vida dele e a morte, logo somos SIM amigos, é um homem absurdamente vazio, suas relações, com a família e com os amigos, com o trabalho e com a vida são vazias, simples, quase como um "dever a ser cumprido" (como apontaram minhas amigas, que eu achei pertinente), ele não ama sua esposa, nunca amou e, me atrevo a dizer, nunca chegou a se quer gostar dela, ele diz ter repulsa dela e ódio da mesma; não se sabe o nome de seus filhos até o meio do livro, ele não se importa com eles e nem parece gostar dos dois, os tratando apenas como continuação da sua linhagem, a filha, uma jovem nobre, muito semelhante a mãe, acaba por noivar com um homem por seu status, ela parece até gostar de seu noivo, e ele dela, porém isso é a demonstração de o quão rasa as relações destas pessoas são. O livro é bem Realista (as in Escola literária Realismo) em mostrar as relações dos personagens e a futilidade de todos, quando Ivan morre, seus "amigos" pensam sobre dinheiro, sobre cargo, mostrando como as pessoas o viam e como elas se relacionavam umas com as outras, nenhum deles se importa que Ivan morreu, eles apenas ficam meio pensativos sobre morrer, pois a morte de uma pessoa próxima te faz pensar sobre a morte de si e sobre o que é viver. 

Quando Vanya se pergunta sobre sua vida, e chega na conclusão que não tinha feito absolutamente nada de interessante, de importante, é um bom momento para notar que, A Morte de Ivan Illich não se trata ou se tratará da morte física dele, mas sim a morte total, Ivan não será imortal, pois ele não será lembrado, afinal não fez nada. Se me permitem, e eu sei que vocês me permitem pois esse é o meu blog e vocês amam que eu escreva, eu farei um pequeno hiato para explicar uma referência histórica aqui; no poema épico e velho para dedeu, "Epopéia de Gilgamesh/Gilgamés", quando ele (Gilgamesh), triste pela morte do seu AMADO companheiro Enkidu (sem "and they were roommates" aqui, o Gilgamesh chorou que nem a porcaria de uma VIÚVA com a morte do Enkidu), busca uma forma de tornar-se imortal, mas falha, pois não há uma maneira para um homem ser imortal, isso é, não morrer, notamos que a imortalidade, e por consequência a mortalidade, é muito além do corpo, Gilgamesh, voltando para casa, nota o que havia feito em sua cidade, Uruk, e chegamos a conclusão de que ele será sim imortal, pois todos nós nos lembraremos dele. Onde eu quero chegar com essa pequena referência histórica e literária, diferente de Gilgamesh, Ivan morreu sem deixar nada, ele nota que era um nada, um inútil, e que iria morrer e ser esquecido, pois até no trabalho, que ele dedicou tudo que tinha, ele será esquecido e substituído. A "morte estendida" de Ivan, isso é, a morte antes e depois dele de fato morrer, também contempla ele pensar que está morto ou não querer viver, apenas esperará para morrer; muitas vezes, pessoas doentes acabam por falecer pois não sentem vontade de lutar contra aquela doença, então apenas morrem, as vezes antes da morte de fato, e não importa o que se faça, não temos como mudar isso, a família de Ivan poderia querer que ele vivesse, mas ele mesmo não queria viver. 

Minhas amigas, MR e B, falaram, enquanto estávamos todas conversando sentadinhas numa canga no chão e comendo biscoitos, que Gerassim, o criado, poderia ser um contraponto para Ivan, pois Gerassim era jovem, cheio de vida e parecia realmente aproveitar sua vida, ele parecia dar significado a viver, algo que Ivan não fez, de acordo com elas, e eu concordo, ele era tudo o que o Ivan não era, e o fato de que o Ivan se agarra (emocionalmente) a ele em seu leito de morte, era como se ele projetasse em Gerassim a vida não vivida por si.


No fim, o livro é bem interessante e bom, nos faz pensar sobre o que é morrer, e notar o quanto a morte está perto e longe de todos nós, podemos morrer a qualquer momento, por coisas bobas como uma queda, por isso, é interessante que pensemos o que fizemos e se aproveitamos nossas vidas, é meio difícil aproveitar totalmente tudo, porque temos que fazer um bando de coisas que não gostamos, mas nunca se sabe quando se vai morrer. Recentemente, eu passei por algo parecido, a morte de alguém próximo, uma parente muito próxima, os detalhes serão mantidos por respeito a minha família e a vocês, que não merecem ficar tristes por assuntos sensíveis de uma garota aleatória na internet que possui um blog bobinho, porém, quando uma pessoa morre, a realização de que todos podemos morrer a qualquer momento bate em todos nós, e de repente, podemos viver mais, porque nunca sabemos quanto tempo temos. Agradeço a todos vocês por lerem o meu blog como parte da vida de vocês, desculpa pesar o clima, mas o livro permite pesar o clima um pouco mais.

Então é isso, o livro é bom, é rapidinho, pode-se ler em uma tarde (ou um dia se você não tiver mais o que fazer) e nos permite pensar bastante sobre muita coisa, lembre-se de ler em um momento de saúde mental boa, esse livro foi responsável por fazer um clube de leiturinha (que a foto do grupo no Whatsapp sou eu inclusive, algo muito engraçado) que tem mais membros agora, e eu (tentarei) postar sobre todos os livros que leremos. Caso tenham alguma sujestão de livro para eu falar sobre e para que a gente leia no clube, comente!























Beijos, Dorothea <333333

10 comentários:

  1. Amo seu modo de escrever, é maravilhoso, e a resenha tbm, concordo com tudo que vc falou e principalmente sobre a morte, que realmente é imprevisível.

    -Um beijo para suas amigas lindas que foram mencionadas

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    1. Fico muito feliz que você tenha gostado e goste da minha escrita, mandarei os beijos para elas

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  2. Achei a resenha maravilhosa, seu modo de escrever é realmente muito bom. Fiquei bem triste que não li esse com vocês, justo na mesma época em que eu estava tendo altas reflexões sobre esse tema sem nem saber.😭
    Enfim, a rainha dos mares sempre quebra tudo e todos, continue com suas ótimas resenhas.

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    1. Obrigado por suas belas palavras, que bom que gostou!! Refletir sobre a morte é algo tão interessante, eu pessoalmente gosto. No próximo livro podemos refletir mais, continuarei a escrever

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  3. Adorei a review, muito interessante… Admiro muito sua forma de escrever e de se expressar por meio das palavras, um dia chego ao seu nível, rainha dos mares‼️

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    1. Obrigado por suas belíssimas palavras!! Fico realmente feliz que pessoas gostem da minha escrita, espero ler o que você escreve também

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  4. Suas amigas parecem divonicas

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